Gabeira: Os loucos e o poder - O Globo

14/01/2018 11:18
Fernando Gabeira: Os loucos e o poder
- O Globo
 
Não tenho condições de afirmar que Trump é louco
 
A discussão sobre a saúde mental do homem mais poderoso do mundo é algo novo para mim. Mas o tema associando loucura e política certamente apareceu em muitos momentos da História. Nos tempos mais recentes, sempre foi mais comum uma discussão sobre a saúde física. No caso de Franklin Rooosevelt, o que estava em jogo era sua mobilidade, algo aparentemente superado nos dias de hoje: a cadeira de rodas não é um obstáculo intransponível.
 
A questão da loucura apresenta dificuldades: como definir que uma outra pessoa é louca contra a vontade dela, sobretudo quando ocupa o cargo político mais importante do planeta? O debate sobre a saúde mental de Trump se acentuou com o lançamento do livro “Fogo e fúria”, de Michael Wolff. Os argumentos que tenho lido não me convencem de que Trump é louco. Às vezes detêm-se em análises de gestos simples como levantar um copo de água, sem considerar que certas hesitações se devem mais à velhice do que à loucura.
 
A disputa com Kim Jong-un sobre quem tem o botão maior, embora infantil na boca de um presidente, expressa uma tendência à competição onipresente em inúmeras atividades humanas.
 
No tempo em que Stalin dominava a União Soviética, muitos opositores foram mandados para o hospício. Era algo bastante temido, sobretudo entre intelectuais. O regime comunista não só monopolizava o poder como também se sentia em condições de monopolizar a razão. Ser de oposição era sintoma de uma doença mental. Numa sociedade democrática deve haver alguns protocolos, inclusive para uso da Justiça, determinando se a pessoa cruzou ou não a fronteira da sanidade. Quando se trata de algo tão político, é evidente que se formem duas grandes correntes, cada uma desconfiando abertamente da imparcialidade científica da outra.
 
Não tenho condições de afirmar se Trump é louco ou não. Outro dia, em Porto Alegre, um jovem me fez uma longa e complexa pergunta, concluindo: acha que estou louco? Quem sou eu para dizer que uma pessoa está louca, respondi. Tenho dúvidas a respeito de mim mesmo. No passado, Francisco Nelson, um grande amigo do exílio, sempre me confortava: tudo bem, você está lúcido.
 
Chico Nelson morreu de enfarte. Desde então, dedico-me a responder sozinho e falta energia para julgar os outros.
 
Mesmo para quem vive num país surreal como o Brasil, é estranho ver dois líderes mundiais trocando insultos, e Trump dizendo que tem um botão maior que o do outro.
 
Às vezes acho que discussão sobre a saúde mental de Trump mascara outra mais delicada: até que ponto ele representa a normalidade estatística, até que ponto o que está em jogo não é a sanidade da própria sociedade americana?
 
Ainda assim, restaria a dúvida sobre o é que normalidade nos dias de hoje. Antigamente, em Minas, um ditado popular tentava fixar a fronteira entre loucura e lucidez: é louco mas não rasga dinheiro. Que sentido tem essa fronteira numa sociedade consumista? Até que ponto a ostentação dos bilionários não é um rasgar dinheiro com base na realidade? Muitos de nós se lembram que loucura e poder estão associados de tal forma que, num dos clichês das comédias do passado, o louco aparecia sempre dizendo que era Napoleão Bonaparte.
 
Melhor, no exame dos atos de Trump, é analisar um a um, não sob a ótica da saúde mental, mas de sua eficácia política.
 
Trump retirou os EUA do Acordo de Paris. É um cético quanto ao aquecimento global. A dúvida dele a respeito de evidências que nos parecem esmagadoras tem consequências políticas. Uma delas é abrir espaço para que China tente ocupar o vácuo deixado pelos Estados Unidos, e a França recupere um pouco de sua grandeza perdida.
 
Temo que seja cada vez mais difícil enquadrar lideres mundiais nos parâmetros da sanidade mental.
 
Na atual fase do capitalismo, o entretenimento de milhões de pessoas tornou a indústria da diversão tão importante que tendem a surgir dela os nomes mais viáveis para liderá-la.
 
O próprio Trump usou a indústria da diversão para ampliar sua popularidade e, agora, utiliza o Twitter como seu programa particular.
 
Não nego que os critérios de sanidade e loucura ainda são importantes e mobilizam milhões de profissionais dedicados a, pelo menos, atenuar o sofrimento humano.
 
Transplantados para a política, esses critérios talvez não tenham a mesma validade. Minha suspeita é de que na luta cotidiana para espantar o tédio, a excentricidade torne-se uma espécie de capital para os candidatos ao poder.
 
Trump é um sintoma de algo bem mais sério e bem mais louco do que podemos imaginar. Aceitar essa premissa é incômodo mas nos aproxima da realidade. Não foi por acaso que, depois da Segunda Guerra Mundial, os intelectuais se voltaram não para dissecar a psicologia de Hitler, mas para se investigar o que havia na sociedade alemã para tornar possível sua liderança.
 
São outros tempos, mas, creio, a tarefa ainda é a mesma.
 

Notícias

17/10/2018 19:54
São Lucas, uma figura simpática do Cristianismo primitivo São Lucas era uma figura simpática do...
17/10/2018 16:14
PESQUISA CRUSOÉ: INTERNET EMPATA COM TV COMO MEIO DE INFORMAÇÃO DOS ELEITORES A internet é o...
17/10/2018 16:11
JOGADA DE LULA É SE DESCOLAR DA DERROTA DE HADDAD Quando orientou o candidato do PT a presidente...
17/10/2018 13:47
Audiência: não amar é o primeiro passo para matar Como na semana passada, Francisco aprofundou a...
17/10/2018 13:41
Bolsonaro visita arcebispo do Rio e assina compromisso com valores conservadores Candidado do PSL...
16/10/2018 19:40
Para Onyx Lorenzoni, colostomia justifica ausência de Bolsonaro em debates Jornal do Brasil -...
16/10/2018 19:29
Igreja Ortodoxa Russa rompe com o Patriarcado de Constantinopla Os membros do Santo Sínodo da...
16/10/2018 19:24
Bolsonaro diminuirá intermediação com o Governo do Piauí, diz Fábio Sérvio Por Portal O Dia...
16/10/2018 17:02
Bolsonaro chega a 71,2% no Distrito Federal, mostra levantamento do Correio O candidato do PSL é...
16/10/2018 16:54
Chineses terão 20% de refinaria do Comperj, diz Petrobras Comperj foi alvo de investigações da...
16/10/2018 14:12
Bolsonaro diz que se eleito extraditará o ex-ativista italiano Cesare Battisti Jornal do Brasil O...
16/10/2018 13:58
Papa: é possível sonhar um mundo sem fome. Falta vontade política “Podemos sonhar um futuro sem...
15/10/2018 22:12
Santa Margarida Maria Alacoque, devota do Sagrado Coração de Jesus Santa Margarida Maria Alacoque,...
15/10/2018 21:55
Eleições 2018 - Ibope: Bolsonaro tem 59% dos votos válidos; Haddad, 41% Por Redação -...
15/10/2018 17:58
CNBB presta homenagem aos professores do Brasil Por CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do...
15/10/2018 15:03
Declaração, em tom de brincadeira, foi feita em visita ao Bope no Rio   Por Vitor Abdala...
15/10/2018 15:00
O Papa apresenta à Secretaria de Estado o novo Substituto No seu primeiro dia como Substituto para...
15/10/2018 13:36
Bolsonaro afirma que vai resgatar o respeito em sala de aula A 13 dias do segundo turno das...
15/10/2018 12:54
Plano de Bolsonaro une criação de creche e ensino religioso Direcionado para famílias pobres, com...
15/10/2018 12:19
Santa Teresa de Ávila (Santa Teresa de Jesus) Santa Teresa de Ávila, conseguiu recuperar o fervor...

Contato

Jornalista Josenildo Melo Teresina - Piauí - Brazil WhatsApp : 86 99513 2539 josenildomelo@yahoo.com