ISTOÉ - 2018 pode ser transformador como 1968?

12/01/2018 20:16
COMPORTAMENTO - 2018 pode ser transformador como 1968?
Como ocorreu há meio século, o momento atual é de polarização política e de alta voltagem nos debates morais, com enfrentamentos entre liberais e conservadores. Compreender as bandeiras do passado é fundamental para construir a sociedade do futuro
 
Vicente Vilardaga e André Sollitto - Site da Revista IstoÉ
Se 1968 foi o ano que não terminou, como afirma Zuenir Ventura no título do livro que melhor traduz o espírito daquele período, 2018, ano que mal começou, traz provocação, embates e bandeiras que o qualificam, desde já, na categoria dos anos transformadores. No lugar da rebeldia de meio século atrás, o que se vê agora é a disruptura, protagonizada tanto por personagens das novas gerações quanto por veteranos da agitação política, social e cultural. Um bom exemplo das semelhanças entre os dois momentos é encarnada pelo diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa. Depois de 50 anos, ele prepara a remontagem da peça “Roda Viva”, de Chico Buarque, que conta a história de Benedito Silva, um ídolo da canção popular manipulado pelos meios de comunicação de massa que muda de nome para Ben Silver. O enredo pouco tem a ver com política, explora as armadilhas do estrelato, mas quando foi encenada pela primeira vez, em julho de 1968, sofreu um ataque raivoso de cerca de 100 integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) que invadiram o teatro Ruth Escobar, em São Paulo, agrediram os artistas e destruíram o cenário. “Nós éramos ameaçados a toda hora, inclusive sofríamos ameaças de bomba — a gente esperava uma reação da direita”, relembra o diretor. “Vivemos hoje uma situação parecida. Agora a gente pode se preparar para o MBL (Movimento Brasil Livre) atacar a nossa próxima montagem.”
Como em 1968, o período atual é de polarização política e de alta voltagem nos debates morais, com enfrentamentos entre libertários e reacionários. Questões comportamentais e associadas aos direitos individuais, como a igualdade racial e a legalização do aborto, estão na ordem do dia. As divergências ideológicas se acentuam e o radicalismo campeia. Há ameaças de censura da criação artística, atacada por movimentos conservadores. A exposição “Queermuseu”, cancelada em Porto Alegre meses atrás, depois de ter sido alvo de manifestações de revolta que constrangeram o público, e a polêmica do homem nu tocado por uma criança numa performance no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo, dão uma prévia do que poderia ocorrer com a nova montagem de “Roda Viva”.
 
A década de 1960 ficou marcada mundialmente por grandes manifestações de estudantes em várias partes do mundo, violência policial, ideias utópicas, novas formas de mobilização, questionamento do poder e da cultura dominante e reações extremas. Jovens protestavam para reivindicar direitos e liberdades, e lutar contra o autoritarismo. Lutavam contra o poder constituído, mas não queriam tomá-lo para si — prevalecia um espírito mais reformista do que revolucionário. Não havia uma pauta de ação bem definida, mas uma recusa geral à tradição, aos modelos estabelecidos na arte e no comportamento. Além disso, pela primeira vez, o impulso transformador vinha dos estudantes e não das classes trabalhadoras. França, Alemanha, República Checa, México, Estados Unidos, Brasil foram alguns dos países em que o ano foi especialmente intenso.
 
Nos Estados Unidos, havia a luta pelos direitos civis, que levou ao assassinato do líder negro Martin Luther King, a campanha contra a guerra do Vietnã e o movimento hippie, que pregava valores como a vida comunitária, o vegetarianismo e o amor livre. Em Paris, em maio, houve uma grande onda de protestos de estudantes que exigiam reformas no setor educacional e passaram a questionar o sistema político e social. O movimento acabou evoluindo para uma greve geral, a maior da Europa, que teve a adesão de mais de nove milhões de pessoas. “Sejamos realistas, exijamos o impossível”, era uma das frases que ecoavam pelas ruas da capital francesa. Em Praga, os estudantes tentavam fazer valer a abertura proposta pelo secretário geral do Partido Comunista, Alexander Dubcek, que pretendia aumentar as liberdades individuais num regime autoritário. Seu projeto acabou sufocado pelo poderio soviético.
No Brasil, um dos grandes acontecimentos libertários de 1968 foi a passeata dos 100 mil, em junho, no Rio de Janeiro. Ela começou a ganhar forma três meses antes, como reação à morte do estudante secundarista Edson Luís Lima Souto, de 18 anos. Edson Luís foi morto por policiais que reprimiram um protesto aparentemente inofensivo: a melhoria das condições do restaurante Calabouço, no centro da cidade, que atendia principalmente estudantes pobres. Mas eram tempos difíceis, com o recrudescimento do regime militar que, naquele mesmo ano, dissolveria o Congresso Nacional por meio do AI-5, o Ato Institucional que confirmou a ditadura no Brasil. Em outubro, a polícia prendeu cerca de mil pessoas que participavam de um congresso clandestino da União Nacional de Estudantes (UNE), em Ibiúna, no interior de São Paulo. “Aqui a situação era mais complicada, não era a mesma coisa que os meninos fazendo barricadas nas ruas de Paris”, diz a jornalista e escritora Marina Colasanti, que participou da passeata dos 100 mil.
 
Ao mesmo tempo em que a repressão aumentava, a arte se impunha como forma de protesto. O tropicalismo surgiu como uma corrente musical e contracultural encabeçada por um inquieto Caetano Veloso, que em 1968 apresentou no Festival Internacional da Canção, pela primeira vez, a música “É proibido proibir”, uma das frases emblemáticas do turbilhão que em maio tomara Paris. Caetano foi vaiado e fez um discurso contundente em que criticava o público. “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada.” O festival foi vencido pela canção “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, também vaiados porque a preferida do público era a “Pra Não Dizer que não falei das Flores”, hino libertário de Geraldo Vandré que permaneceria sob censura pelos anos seguintes.
 
Os anos de chumbo estavam começando e o presidente Artur da Costa e Silva, que decretara o AI-5, agia para sufocar os protestos com mais repressão policial e censura, reduzindo os direitos individuais dos brasileiros. “Um legado fundamental do período é a introdução de um paradigma inovador de mudança social, fundado no investimento na mudança das consciências e não mais na tomada do poder”, afirma o historiador Daniel Aarão Reis Filho, professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense. “Além disso, diversas pautas forjadas nos anos 1960 continuam atuais, como a emancipação das mulheres, questões de identidade e também temas referentes a hierarquias sociais e afetivas e ao meio ambiente.” Para Reis, as pessoas parecem hoje muito interessadas em lutar por questões que lhes digam respeito, imediata e diretamente. Isto é altamente positivo e, de certo modo, trata-se, aí também, de um legado da década de 1960.
 
“A rebeldia de 1968 se transformou em expressão no mundo digital, onde toma várias formas” – Fernando Gabeira, jornalista
 
Além dos fatos marcantes que aconteceram naqueles tempos, houve a liberação de uma energia transformadora que vem se extravasando desde então. É um período em que os velhos modelos de entendimento da realidade entram em crise. Houve uma recusa à política tradicional, que reverbera até hoje, além da exaltação das identidades culturais e das minorias. Foi um momento de grande entusiasmo em que prevalecia o desejo de democracia direta. Para a filósofa e professora da Universidade de São Paulo (USP) Olgária Matos, havia, então, uma alegria de viver, que ela não vê atualmente. “Há uma falência na crença da democracia representativa. As pessoas não acreditam nas instituições, nas formas que constituem a vida pública”, afirma. Para ela, o cenário para uma mobilização existe, assim como motivos capazes de unir as mais diversas lutas individuais em prol de temas comuns a todos: saúde, segurança pública, educação.
 
Mundo Digital 
 
Figura icônica das bandeiras libertárias lançadas em 1968, quando participou da luta armada, o jornalista, escritor e político Fernando Gabeira, acredita que o espírito revolucionário daqueles tempos continua vivo na internet, um ambiente em que lutas historicamente subestimadas ganham força e defensores dos ideais mais diversos encontram companheiros de luta. “A rebeldia de 1968 se transformou em expressão no mundo digital, onde toma várias formas. Os hackers, por exemplo, são rebeldes”, diz. E isso não tem nada a ver com ideologia. Participante da luta armada contra a ditadura militar nos anos 1960, Gabeira acompanhou de perto os movimentos sociais, do feminismo à preocupação com o meio ambiente. No Brasil, a forma como se tratavam esses problemas era romântica. “Era quase um convite a esquecer esses problemas para tratar de algo mais sério, a ditadura”, afirma. Hoje, ele acredita que o segredo seja encontrar o equilíbrio. “O front cultural se impôs. É preciso respeitar essas lutas, mas sem perder de vista a situação que estamos vivendo”.
 
“As pessoas estão muito interessadas em lutar por questões que lhes digam respeito”  – Daniel Aarão Reis, historiador
 
Segundo Gabeira, o motivo capaz de unir a população hoje é a reconstrução do País. Para que isso seja possível, é preciso superar a polarização que existe na sociedade. “As pessoas tendem a achar que o feminismo é uma luta de esquerda. A preocupação com o meio ambiente é uma luta da esquerda. Não é. É algo muito mais nuançado”, diz ele. E muito mais pragmático. A aura romântica de 1968 deu lugar a manifestações que buscam resultados práticos. Exemplo de uma ação desse tipo é a ocupação das escolas estaduais pelos estudantes em São Paulo, em 2016, contra a reforma do ensino. A onda de denúncias contra o assédio, não apenas em Hollywood, mas em toda a indústria do entretenimento, é um exemplo a favor do feminismo, um dos movimentos que estavam em voga há 50 anos e que mais ganham força nos tempos atuais.
 
A década de 1960 reformou o capitalismo, gestou o conceito de desenvolvimento sustentável e criou novas camadas de valor associadas ao meio ambiente e à qualidade de vida. Os hippies deram o pontapé inicial para a abertura de poderosos mercados, como o de produtos naturais, incluindo a maconha, e a própria informática, que deu um grande salto de desenvolvimento num ambiente de paz e amor em torno dos campos universitários californianos. Quem vive em 2018, trabalha em rede, acredita na liberdade do indivíduo e reivindica o direito de ser quem é, questiona os micropoderes é devedor daquele período. A rebeldia que se alastrou em 1968 evoluiu para a disrupção — inovação ou atitude que interrompe ou altera um processo histórico e que manifesta nos comportamento das pessoas e no mercado, como aconteceu com o negócio da música e com o fim da indústria fonográfica, por exemplo, substituída por um ambiente de produção e distribuição descentralizado e colaborativo. “Utopia, hoje, é um celular de última geração”, diz Marina Colasanti.
 
“Utopia, atualmente, é um telefone celular de última geração” – Marina Colasanti, escritora
 
 
 

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