Lava-Jato: Eike abasteceu ‘mina de ouro’ de Cabral

27/01/2017 08:24
Lava-Jato: Eike abasteceu ‘mina de ouro’ de Cabral
Empresário está foragido e Interpol foi alertada
 
Ex-governador teria € 1,8 milhão só em diamantes
 
Esquema tinha conexão com Uruguai e Panamá
 
Um “oceano ainda não completamente mapeado” de dinheiro foi desviado pelo esquema de corrupção chefiado por Sérgio Cabral, segundo a LavaJato, que ontem tentou prender Eike Batista. O empresário é acusado de pagar propina de US$ 16,5 milhões ao ex-governador, numa operação que envolveu a venda fictícia de uma mina de ouro. Pelo menos US$ 100 milhões foram encontrados em contas no exterior ligadas a Cabral, dos quais US$ 80 milhões já foram repatriados. Eike viajara dois dias antes para os Estados Unidos, e a PF alertou a Interpol.
 
MINA DE OURO 
Cabral teria embolsado US$ 80 milhões
 
• Para procuradores, US$ 100 milhões descobertos até agora são apenas parte do dinheiro ocultado
 
Chico Otavio, Daniel Gullino e Juliana Castro | Globo
 
-RIO E BRASÍLIA- A força-tarefa da Lava-Jato no Rio afirma que o esquema de corrupção comandado pelo ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) é muito maior do que o já descoberto nas operações Calicute, deflagrada em novembro do ano passado, e Eficiência, realizada ontem, e que teve como um dos alvos o empresário Eike Batista, que teria pagado propina de US$ 16,5 milhões ao peemedebista — lavada na compra de uma mina de ouro. Por meio de provas trazidas por dois delatores, que já tiveram o acordo homologado pela Justiça Federal do Rio, os procuradores afirmam ter descoberto que Cabral, seu ex-secretário Wilson Carlos e Carlos Emanuel Miranda, apontado como um dos operadores do ex-governador, ocultaram em contas no exterior mais de US$ 100 milhões (mais de R$ 340 milhões). Desse total, cerca de US$ 80 milhões eram do exgovernador. Além disso, foi descoberto 1,8 milhão de euros em diamantes, que serão repatriados.
 
O restante dos US$ 100 milhões foram distribuídos entre Wilson Carlos (US$ 15 milhões) e Miranda (US$ 7 milhões). Eles estão presos desde novembro do ano passado e tiveram um novo mandado de prisão expedido na operação de ontem.
 
Não se sabe quanto da propina de R$ 224 milhões que o MPF atribuiu ao grupo comandado por Cabral durante a Operação Calicute foi enviada para essas contas no exterior. Os procuradores, porém, não têm dúvidas que os valores movimentados são superiores aos descobertos até agora.
 
— O patrimônio dos membros da organização criminosa comandada por Cabral é um oceano não completamente mapeado — disse o procurador Leonardo Freitas, coordenador da força-tarefa da Lava-Jato no Rio, em entrevista coletiva.
 
A Operação Eficiência ganhou força quando os doleiros Marcelo Hasson Chebar e Renato Hasson Chebar procuraram o MPF espontaneamente e relataram, em acordo de delação premiada, duas grandes operações para o esquema de Cabral. Entre 2002 e 2012, eles fizeram remessas de valores de Cabral para o exterior. Nesse período, teriam sido ocultados US$ 100 milhões. Na decisão em que determina as nove prisões da operação, o juiz da 7ª Vara Federal Criminal, Marcelo Bretas, diz que “as cifras são indubitavelmente astronômicas”. O MPF já conseguiu repatriar cerca de R$ 270 milhões por meio de colaboradores que assinaram delação premiada. — A gente pode dizer que esses US$ 100 milhões são apenas uma parte do dinheiro do esquema do Cabral — afirmou ao GLOBO o procurador Sergio Luiz Pinel. — Para o MPF, a organização comandada pelo ex-governador ainda tem muito dinheiro à sua disposição em local ainda desconhecido — completou.
 
O esquema do grupo também envolveu pagamento de gastos. Enquanto há um detalhamento das despesas entre 2014 e 2015 — desde ternos e joias para Cabral até o cartão de crédito da ex-mulher do político, Susana Neves —, não há exemplos da destinação ou dos volumes de gastos no período anterior. O MPF reconhece que conseguiu identificar apenas “parte dos benefícios auferidos pelo grupo criminoso”.
 
Em seu depoimento, Marcelo afirmou que ele e o irmão não realizaram mais operações depois de junho de 2015. O MPF garante, no entanto, que “a circulação de valores continuou”, citando o depoimento de Sônia Ferreira Baptista, ex-secretária de Cabral, que relatou, em dezembro de 2016, que havia feito pagamentos para o ex-governador nos meses anteriores.
 
Inicialmente, Cabral usava os serviços dos dois delatores para trocar reais por dólares em viagens ao exterior. Com o estouro do escândalo do propinoduto, em 2002, Cabral procurou Renato para propor um negócio: queria transferir valores que mantinha em uma conta chamada Eficiência (que originou o nome da operação) na agência do Israel Discount Bank em Nova York. O propinoduto foi um escândalo de desvio de dinheiro entre 1999 e 2000 na secretaria de Fazenda do Estado do Rio durante o governo de Anthony Garotinho.
 
Na operação de ontem, o MPF apontou novos operadores do dinheiro para Cabral: o doleiro Álvaro José Novis e Sérgio de Castro Oliveira, conhecido como Serjão, que trabalhava com o peemedebista desde os tempos de Assembleia Legislativa do Rio.
 
Fontes ligadas a Cabral, ouvidas pelo GLOBO sob a condição de anonimato, relatam que depois da operação de ontem, a defesa pensa na delação para diminuir a pena do ex-governador.
 
Os advogados de Cabral e Miranda não retornaram aos contatos do GLOBO. A defesa de Wilson Carlos afirmou que só se manifestará nos autos do processo. (Colaborou Gabriela Valente)
 
 

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